Brasil e América Latina, os melhores
mercados para a náutica global.
"O mercado náutico de Santa Catarina é um
dos melhores do mundo"
Kátia Borges
Formado em administração de empresas na Itália e
vindo de experiências no setor automotivo, o italiano Davide Breviglieri, 49,
mora há 15 no Brasil e atua há cinco no mercado náutico, como CEO da Azimut
Yachts, braço brasileiro do poderoso grupo italiano Azimut Benetti, maior
fabricante de iates de alto luxo do planeta. Localizado na cidade de Itajaí, em
Santa Catarina, o estaleiro da empresa já produziu ao menos um grande
sucesso nacional, que está sendo exportado para os Estados Unidos
e países da América do Sul, o Azimut 42, que custa cerca de 700 mil dólares - o
modelo de partida - e tem como diferencial uma área para churrasco
no mar, instalada na popa, que abriga frigobar, máquina de gelo e
chopeira. Na contramão da crise, a Azimut teve um crescimento acima do esperado
no ano passado, com faturamento de mais de 700 milhões de euros. O executivo
esteve recentemente em Salvador para participar da primeira edição do
Aperitivo Azimut, "tentativa de aproximação maior com os clientes da Bahia",
considerado um estado estratégico para a empresa, por conta de seu potencial
marítimo. Conversamos com Davide na sede da Marina Yachts,
representante oficial da marca no estado. Entre outras coisas, o executivo
explica as razões que levam o mercado de alto luxo a manter-se alheio à
crise e qual o perfil dos consumidores "diferenciados".
O
senhor já disse que a Bahia é estratégica para a Azimut. Em termos de
potencial náutico, como a situaria em relação a outros estados do país?
Por sua situação territorial, a Bahia é um estado que tem um
potencial náutico imenso e sempre foi foco de interesse para nós. Mas
apenas agora, a partir do fortalecimento da parceria com a Bahia Marina,
conseguimos consolidar um projeto de relevo. Infelizmente, o
mercado náutico não tem hoje estatísticas oficiais que permitam
situar a Bahia em relação a outros estados. Mas nossas pesquisas
indicam uma potencialidade de compra de 10% dos iates de luxo
que pertencem à família Azimut. E este é um potencial que, do nosso ponto de
vista, deverá crescer ainda mais expressivamente.
Sem
estatísticas oficiais, como o interesse dos baianos pelos iates de alto luxo
da Azimut pode ser traduzido?
Nossa
aposta na Bahia é grande e as perspectivas são bastante positivas.
Apostamos em um crescimento acima de dois dígitos por ano, o que, para
nós, seria natural, dentro do projeto que estamos consolidando no país.
Começamos a fabricação de barcos em 2011 e, hoje, já fizemos 35 embarcações.
Então, dentro das nossas expectativas, da Bahia, esperamos entre 10% e 15% ao
ano.
Quais
as novidades que a Azimut traz ao mercado náutico do estado?
Bom, somos o primeiro grupo no mundo em termos de proposta náutica de altíssimo
nível e de altíssimo luxo. Então, na Bahia, a proposta é a mesma do nosso
projeto no Brasil: oferecer uma experiência náutica que não se compara a
nenhuma outra no país ou no mundo.
Está
prevista a realização de um curso específico para formação de
tripulantes de embarcações de esporte e lazer em Salvador. Em sua opinião, há
uma lacuna específica, nesse sentido, em relação ao Nordeste ou à Bahia?
Não, na verdade, há uma lacuna geral. E a qualificação é um dos aspectos
mais importantes do mercado náutico de luxo hoje no país. No ano passado,
fizemos uma primeira edição, e o sucesso foi imenso. O que acontece é que o
desenvolvimento do mundo náutico brasileiro é muito recente - cerca de 15
anos - e os barcos têm hoje a bordo uma tecnologia extremamente sofisticada e
que precisa ser utilizada com propriedade. Além disso, houve um crescimento no
tamanho e na complexidade das embarcações, e a maioria dos marinheiros, embora
experiente e com uma longa história no mercado e no mar, nem sempre acompanhou
essas mudanças.
A
Azimut Yachts do Brasil teve um crescimento de mais de 15% no ano passado. Como
a empresa conseguiu se manter ilesa em meio à crise econômica mundial?
Acredito que há dois cenários hoje que podemos considerar como elementos de
análise. Um deles é o mercado interno de luxo. Este é, com certeza, um mercado
diferenciado. Sentimos, logicamente, o momento que atravessa o país, mas o
sentimos de uma forma um pouco diferente, porque nossos clientes estão
fora da média. Outro aspecto, o segundo aspecto, é que nosso projeto se
confirmou de modo tão sólido, tão consistente, que estamos agora
preenchendo espaços que outros estaleiros internacionais não conseguiram
manter. Temos uma vantagem gigantesca sobre eles, que é vender um produto com
qualidade e características internacionais, mas com preços mais competitivos,
pois o custeio e as condições são made in Brasil. Alguns estaleiros
concorrentes não tiveram a mesma sorte. Todas essas condições criaram um
ambiente extremamente favorável para nós. E há ainda a exportação de barcos
fabricados em nosso estaleiro, em Santa Catarina, que está sendo ampliada.
Começamos pela América Latina e, no ano passado, exportamos o primeiro
barco para os Estados Unidos, que é considerado um mercado mais maduro,
mais resistente a embarcações externas, mas que também é o maior mercado náutico
do planeta, aquele que mais consome iates de luxo. Entrar nesse mercado
foi um grande desafio para nós. E estamos levando para lá o mesmo barco
que produzimos e vendemos aqui.
Qual
a projeção de expansão do mercado náutico internacional para 2016?
Como disse, o mercado náutico vai bem, apesar da crise. Especialmente os
Estados Unidos e mesmo a Europa. Temos hoje apenas dois mercados na contramão
dessa tendência positiva, que são os emergentes, Rússia e
China. O que acontece, no caso específico da China, é que os
chineses com alto poder aquisitivo não gostam de água. Quando decidem comprar
um iate é por conta apenas do status, não por amor ao mar. De todo modo,
no ano passado, o mercado náutico mundial cresceu entre 4% e 5%. A
expectativa é de que esse ritmo seja mantido.
Quais
os mercados náuticos internacionais com maior potencial hoje?
A América Latina é, com certeza, nosso maior foco hoje. E, pensando nesse
mercado, criamos kits para o Azimut 42, que, no Brasil, são muito amados e que
chamamos de "kits gourmet". Eles ficam na popa do barco e têm
churrasqueira, chopeira e máquina de gelo. Mas, em termos de mercado náutico,
de modo geral, eu destacaria Colômbia, Uruguai, Paraguai, México, Venezuela.
Estes são países com grande vocação náutica. E mesmo a Argentina, hoje em
crise, tem uma história náutica ainda superior à do Brasil
Quem
são os consumidores dos iates de alto luxo hoje no país?
Os nossos clientes são pessoas que, em geral, já têm um
envolvimento com o mercado náutico. Pessoas que já conhecem barco, que têm uma
cultura de mar, que investem em uma cultura náutica bastante aprofundada. Não
são novos-ricos, como muitos podem imaginar, mas pessoas que estão
em evidência, que são bem-sucedidas e competentes em suas áreas e que, por conta
disso, buscam um produto único, de padrão internacional. São empresários,
artistas, gente que, por conhecer o mercado, busca o que há de melhor nesse
mercado.
Qual
o custo médio de um barco da Azimut hoje no mercado nacional?
Hoje produzimos seis tipos de barco. Nosso portfólio de proposta econômica é em
dólares, pois a maioria dos componentes usados em nossos barcos é importada. O
preço de uma embarcação produzida pela Azimut varia hoje entre 650
mil e cinco milhões e meio de dólares. Os tamanhos também são variáveis,
indo de 42 a 83 pés.
Uma
característica específica do mercado brasileiro de iates de alto luxo é que os
clientes têm procurado barcos com dimensões cada vez maiores.
Sim, é verdade. A dimensão dos barcos no Brasil cresce um pouco mais do que no
resto do mundo. E essa é uma lógica que talvez possa ser explicada a partir de
vários elementos. Mas creio que a exigência por tamanhos cada vez maiores
corresponda mesmo ao sonho dos clientes, que vem se concretizando, e isso - o
tamanho do barco - passa a ser parte de um projeto maior de lazer, que
envolve a família, os amigos.
O
senhor está há 15 anos no país. O que o atraiu e o fez ficar no Brasil?
O Brasil é um desafio. Um país belíssimo e que nos estimula, nos desafia
o tempo todo. Além disso, fiquei apaixonado pelo mercado náutico - embora
ainda não tenha meu próprio barco (risos).
FONTE/Source:
Jornal A Tarde em 07/03/2016 às 12:48.
https://atarde.uol.com.br/muito/noticias/1750863-o-mercado-nautico-e-um-dos-melhores-do-mundo
IMAGEM: Jornal A Tarde