sexta-feira, 24 de julho de 2026

Smart Sea >> O olhar "estranho" Baia Tijucas e o Mar Catarina

 

Imagem: Disponível no www.instagram.com/praiadetijucas/


Em Busca da Vocação Marítima: 

O Potencial do Litoral Catarinense e os Desafios do Setor

A região que compreende os municípios de Governador Celso Ramos, Bombinhas e Tijucas carrega uma vocação náutica autêntica e altamente promissora. Essa percepção — moldada desde a infância, quando as paisagens recortadas por canais artificiais já remete a referências internacionais como a região de Empuriabrava, na Espanha — evidencia o potencial de Santa Catarina para o desenvolvimento de marinas estruturadas no modelo inshore (escavadas em áreas de baixada).

A experiência prática no setor demonstra que o mercado náutico é um poderoso motor econômico. Cidades como Paraty, no Rio de Janeiro, que hoje concentra o maior número de vagas molhadas do país, provam que a atividade gera empregos e atua como um sentinela ambiental, inibindo práticas predatórias. Santa Catarina possui esse ecossistema de forma natural, mas esbarra em um obstáculo crônico: a morosidade e a falta de clareza regulatória.



O Gargalo Burocrático e o Contraste Internacional

O desenvolvimento de projetos de infraestrutura náutica no estado enfrenta grande insegurança jurídica e lentidão nos processos de licenciamento, cenário que destoa sensivelmente de mercados maduros:

  • Marinas nos Estados Unidos: O processo para abertura de uma marina molhada consome cerca de três a quatro semanas, exigindo o cumprimento de apenas três procedimentos burocráticos focados nos impactos ambiental, econômico e social.

  • Cenário Nacional: No Brasil, os órgãos ambientais e as instâncias públicas carecem de diretrizes claras sobre o que é permitido, gerando um ambiente de incertezas que afasta grandes investidores internacionais.

Florianópolis e a Cultura das "Costas para o Mar"

Apesar de projetos recentes avançarem em municípios como Itapema, Porto Belo e Balneário Camboriú, o estado ainda "arranha a superfície" de seu real potencial. O principal exemplo desse distanciamento cultural e urbanístico em relação ao mar está na própria capital.

"Florianópolis é uma cidade cercada de mar por todos os lados que, literalmente, despreza esse mar e as atividades náuticas." Amyr Klink

O aterro da Baía Sul reflete essa contradição: o Centro de Eventos e sua arquibancada foram construídos de costas para a água. Urbanisticamente, teria sido mais funcional e inteligente prever o estaqueamento e a contenção da área para desenhar uma marina interior antes de executar o aterro. Hoje, a capital vive uma obsessão pelo transporte rodoviário, negligenciando as vias navegáveis.

O Obstáculo da Ponte Hercílio Luz e a Maricultura

As limitações físicas também restringem a integração náutica da cidade. A conexão entre as baías Norte e Sul é inviabilizada para embarcações de maior porte. Um veleiro de 45 pés (cerca de 14,5 metros), por exemplo, não consegue navegar de uma baía à outra devido ao vão da ponte histórica. Para acessar o sul da ilha, a embarcação é obrigada a dar a volta em mar aberto, em um trecho sem abrigos navegáveis.

Além das restrições de infraestrutura, as áreas abrigadas do litoral catarinense — que seriam ideais para o desenvolvimento náutico — hoje desempenham outra atividade consolidada: a maricultura. Impulsionada pelo trabalho da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a criação de ostras e mariscos ocupa esses espaços, tornando inviável a coexistência com instalações de marinas nesses locais específicos. O desafio do estado reside, portanto, em conciliar suas potencialidades e superar a burocracia para, finalmente, consolidar sua identidade marítima.





sexta-feira, 10 de julho de 2026

Amyr Klink - Navegar é necessário ...

 

Imagem: Acervo do navegador Amyr Klink disponível no Instagram Tem Alguém Me Assistindo (2026)  

Como o confinamento saudável a bordo inspira a mentalidade marítima? 

As viagens em família realizadas em embarcações que utilizam o vento como propulsão principal carregam um caráter profundamente educativo. Viver confinado em um ambiente inóspito exige adaptação: a bordo, as tripulações lidam com recursos finitos, onde a otimização do espaço impede o uso de eletrodomésticos supérfluos, como secadores de cabelo, ou o desperdício de água no banho. Diante de margens de erro mínimas, esse convívio estimula a capacidade de solucionar problemas de forma simples e de realizar mais com menos, fomentando uma sólida conexão com a natureza e o desenvolvimento da independência.

Essa filosofia reflete-se na gestão de frotas de barcos a vela, em que sobressai um respeito rigoroso no tratamento de efluentes, no controle do consumo e na aversão ao desperdício. Diferente de mares poluídos quimicamente — como ocorre em pontos do Mediterrâneo, onde as águas parecem translúcidas mas escondem contaminação —, a navegação consciente reforça o apego pela preservação ambiental e o combate à degradação dos rios e oceanos.

As Transformações nos Extremos do Planeta

A observação de ecossistemas como o da Antártica revela transformações climáticas perceptíveis. Embora os registros históricos humanos nessas regiões extremas sejam recentes frente aos ciclos milenares da Terra, indicadores associados à radiação ultravioleta e a eventos meteorológicos têm chamado a atenção de navegantes.

  • Radiação Ultravioleta: A exposição solar na Antártica, que antes permitia longos períodos de atividade sem intercorrências, hoje resulta em queimaduras graves em poucas horas.

  • Tempestades de Ventos Extremos: Relatos de navegação apontam para o aumento da frequência de ventos acima de 70 a 80 nós, com rajadas que atingem 100 nós, em regiões como o Canal de Beagle, a Terra do Fogo e a Patagônia.

Esses fenômenos servem como um alerta para a necessidade de reavaliar a relação humana com o clima global.

Infraestrutura e a 

Busca por uma Mentalidade Marítima no Brasil

O Brasil detém uma das maiores costas navegáveis do mundo, contudo, carece de uma mentalidade marítima consolidada. Em diversas regiões litorâneas, a preferência pelo transporte rodoviário em detrimento das vias aquáticas evidencia a subutilização desse potencial. Cidades catarinenses, amparadas por um histórico de convivência com o mar que remonta às antigas tradições baleeiras e caça marítima, reúnem condições para liderar uma transição cultural voltada ao desenvolvimento sustentável da economia azul.

A implementação do transporte público hidroviário em municípios contíguos a Florianópolis, como São José e Biguaçu, surge como uma alternativa viável e econômica ao modelo viário saturado. 

O incentivo à pequena cabotagem e a instalação de infraestruturas eficientes de atracação — inspiradas em modelos bem-sucedidos adotados na Europa, na Austrália e na Tasmânia — poderiam redefinir a mobilidade e o transporte de cargas no país.

Região / Contexto Histórico

Impacto na Mentalidade Marítima

Canal do Linguado (SC)

A ligação de São Francisco do Sul ao continente por meio de aterro interrompeu a dinâmica hídrica local.

Baixada Fluminense 

(RJ)

A substituição de sistemas multimodais eficientes (ferroviário e aquaviário) priorizou o transporte automotivo.

Baixada Santista (SP)

O isolamento de municípios de importância histórica e cultural ocorreu em função da expansão de rodovias como o Sistema Anchieta-Imigrantes.

Engenharia Naval e o Legado Científico do Paratii 2

Projetos voltados para barcos de exploração e trabalho demonstram como a tecnologia naval pode servir à ciência e ao turismo de expedição. 

Um exemplo dessa aplicação foi o desenvolvimento de embarcações de alumínio, concebidas em parceria com o engenheiro naval Thierry Stump. Projetado inicialmente para uso pessoal em um programa de explorações que se estendeu por duas décadas, o antigo Paratii 2 foi posteriormente adquirido pela fundação suíça Swiss Polar Foundation sob o nome de Forel.

Atualmente sediado na Bretanha, o navio permanece ativo como uma plataforma de pesquisa científica e educacional, demonstrando longevidade e inovação mesmo após 22 anos de operação. A transição desse tipo de projeto para o cinema — como no caso da produção sobre a jornada de 100 dias realizada pela Disney e sob a direção de Carlos Saldanha — contribui para aproximar o público da literatura náutica e das vivências em isolamento nos polos.

Para o futuro da gestão costeira, a recomendação central aos gestores públicos e urbanistas reside no estudo de casos internacionais de despoluição e revitalização de canais, a exemplo das iniciativas conduzidas em Londres, Seul e Paris, adaptando essas soluções às vocações naturais do litoral brasileiro.